 A "sala" de aulas é uma variação bizarra da cela eclesiástica presente nos conventos e seminários ao longo da história. A "sala" é ergonomicamente construída para oprimir, vexaminar o educando e reafirmar o poder opressório do sistema, na figura do professor, consolidando seu status superior. Embora rara seja, a cultura continua a reafirmar a dominação professoral que do alto de seu tablado, vigia, fiscaliza a chegada e a permanência do amedrontado aprendiz durante as sessões de incontinência verbal; pois a muitos importa "dar a matéria" sem se importar se o rebento assimilou ou aprendeu. A arquitetura da cela é conservadoramente igual à de séculos passados, com variações de tamanho dados a adaptação do individual para o coletivo. A cela, construída originalmente para enclausurar o seminarista ou a "moça" madre é direcionada para oprimir, expor, execrar aquele que atrasado chega ou que mal vai às aulas. A doutrina monacal impingida nas salas de aulas lança um "verniz cultural" sobre a sociedade a preencher dados estatísticos divorciados da realidade educacional. A disposição da porta de entrada é tendenciosamente apontada para frente da turma, com escotilha de vigia. A Cela de aulas, da maneira tradicional, não tem compromisso com a qualidade do ensino, a considerar que toda vez que alguém adentra no ambiente é imediatamente notado, inclusive pelo professor, que se incumbe logo de despejar suas idiossincrasias no indômito chegante. A turma fica comprometida cada vez que entra um educando, em virtude do desvio de atenção iminente.
Os utensílios seguem a mesma linha torturante, pois raramente são ergonomicamente confortáveis para as longas horas de subsunção. A disposição das carteiras (antes), hoje cadeiras, é estrategicamente colocada para definir o grau de estratificação social do aluno. Ou seja, os melhores, na frente, os demais lá atrás. O exercício do aprendizado é baseado na política do medo, como forma do professor "vencer" os "pestinhas" ou as "pragas" se adolescentes. O quadro negro, agora verde ou branco, foi arquitetado apenas para os melhores, sem considerar o tamanho da cela, suas peculiaridades, portanto sempre do mesmo tamanho, não importando quem vá usá-lo ou dele usufruir. O importante neste caso é a estética. A Cela de aulas, como se apresenta em nada favorece o processo de mudança, imprescindível ao crescimento escolar. Assim a Cela de aulas não é um instrumento democrático a serviço do professor e do educando. O professor, sempre com muito respeito, faz das vezes de bufão, pois que contaminado pela veia cratológica, imagina-se controlador da situação sendo conscientemente ou ao contrário, instrumento do sistema. Os resultado é o desalento a autonegação do educador que fica impotente pela certeza da ausência de resultados. O Professor deveria como deve ser - para o ensino de crianças e adolescentes - o epicentro das operações de aprendizagem e não o egocentro como ocorre até os dias de hoje.
O olhar para frente do educando pode favorecer uma série de viagens irrespondíveis, longe da vigilância do professor, já que a atenção é artificial, quando deveria ser orgânica. A atenção artificial é construída sob duas vertentes simultâneas, a concreta e a abstrata. No primeiro caso o educando tem visivelmente sua atenção capturada pelos movimentos por vezes frenéticos do professor e no segundo, permite-se a sua particular viagem pelo imponderável mundo dos sonhos. A atenção orgânica é a verdadeira abdução pelo professor ao educando permitindo a real interação entre aluno e professor, resultando no melhor do saber. A Cela de aulas, não é um instrumento democrático, sendo um desserviço para a educação, contribuindo dentre outros fatores para o processo de idiotização do educando. John Dewey[1] entendia que a verdadeira educação era crescimento em favor da diversidade e, sendo assim, só podia existir na democracia, dado que a democracia era entendida por ele como uma experiência histórica capaz de fazer proliferar pessoas e comportamentos os mais variados.
Fonte: Revista Gestão Universitária, Edição 215
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